
Fora de casa, caminhando um pouco pelas ruas, parei em uma praçinha onde o sol pincelava o céu numa perfeita aguarela, era um típica tarde de outono, em que as folhas caiam e eu as observava. A praça não estava cheia, mas algo me chamou a atenção. Havia um garotinho sentado e sozinho, como quem esperava alguém. Me aproximei, e o vi balançando suas perninhas curtas que nem mesmo alcançavam o chão, ele era meio loirinho, e estava muito bem agasalhado, apesar de não fazer frio (por alguns minutos eu esqueci que a temperatura é psicológica, depende muito da emoção.) Ao ouvir meus passos esmagar as folhas, ele me olhou com uma expressão assustada. Eu disse um "Oi" e ele sorriu. Como se me reconhecesse e fossemos amigos há anos, ele afastou para que eu pudesse sentar, e colocou suas mãos sobre as pernas e me contou que estava sozinho, e que ninguém além de Deus o podia ouvir por ali. "Pois o pai, o filho e espírito santo tinham ido ao litoral, mas ao seu pedido eles o viriam socorrer antes do fim da tarde". Dessa forma, eu reconheci uma fé inabalável. Nós ainda conversamos durante algum tempo e ele me contou sobre como é estar sozinho, não que aquilo fosse uma novidade para mim, mas era bom ouvi-lo. Aquele menininho na verdade era eu. Eu o deixei no parque da memória, bem no dia em que me pediram um pouco mais, bem no dia em que eu desejei crescer para que todos pudessem me ouvir, bem no dia em que eu quis que meus pais me admirassem como eles admiravam o filho do vizinho, no dia em que eu decidi compreender a química e a biologia, e fazer muitos cálculos físicos. Foi então que deixei um pouco pra trás a vontade de ficar sem fazer nada, de acreditar nos meus sonhos, de pensar que eu já era um grande modelo, de ficar esperando um grande amor, de viver meu lindo país das maravilhas. Eu encontrei meu pequeno, e desde então nunca nos separamos, somos dois pesos de uma balança bem equilibrada. Mas e você? Deseja achar alguém pequeno que por acaso tenha esquecido em alguma praçinha da sua memória?
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